Howl Back

porque Howl é o nome de um biopic a estrear nos EUA sobre Allen Ginsberg (James Franco), aqui fica uma nota de rodapé no poema que definiu uma geração:


Howl Back - O Meu Uivo



Eu vi as mentes mais incapazes da minha geração, rebolando nas dunas da despreocupação, enquanto o sol durasse, aqueles de nós que se interessassem, esses podiam ver,

Vi aqueles que chafurdaram na poesia icónica do discurso alterado, drogas, amor, rodas, pastilhas e filmes feitos ao luar,

Aqueles que enganaram famílias e namoradas e dormiram todo o domingo (de tarde) em parques e jardins relvados,

Aqueles que se entorpeceram em álcool e ganza e se deliciaram em todas as noites do Festival de Paredes de Coura, vagueando religiosamente na noite obscura,

Aqueles que subiram ao palco demasiadamente ébrios para ter medo da primeira vez,

Aqueles que derramaram sémen nos cobertores de camas emprestadas e saíram de lá à pressa, contando os dias para a próxima festa, ou festival, ou qualquer coisa,

Aqueles que passaram ao lado de uma carreira, e perderam todas as camionetas e chegaram atrasados a todas as aulas,

Aqueles que eram os futuros campeões olímpicos, ou apenas nacionais, de natação ou xadrez ou futebol ou jogos de computador,

Aqueles que de tanto viver em contradição com os seus pais se tornaram uma réplica jovem deles e das suas manias & personalidades-tipo,

Aqueles que acharam que mais uma noite sem dormir, uma semana sem parar (roda no ar), um ano sem estudar ou trabalhar, incapazes de tomar partido nas eleições, ou desnecessário ganhar para viver,

Aqueles que roubaram e viram roubar e olharam para a frente, numa indiferença bruta e moderna, só nós, mesmo, gerações do século XXI podemos ser hedonistas sem moral,

Aqueles que subornaram os seus sentimentos e fizeram do seu sofrimento uma campainha que mais tarde ou mais cedo vai parar,

Aqueles que desistiram dos seus (e meus) sonhos. A televisão é enorme, demais; não precisamos de imaginar, já está tudo imaginado!

Aqueles que aprenderam a ler e escrever mas deixaram isso para os outros. Os que precisam, os que vivem nas bibliotecas, ridículos, idiotas, como as chavalas que se riem de nós quando lêem o nosso último poema,

Aqueles que tiveram melhores amigos e agora não têm, porque as universidades os roubaram, as namoradas os roubaram, a morte nas estradas e o suicídio os roubou…

Aqueles que estão hoje a arrumar carros, dentes desarrumados, e as avós deles a pensar que Deus escreve torto e ponto final.

Aqueles que têm 40 anos e revivem o seu passado todos os dias fumando haxe com os garotinhos saídos do 12º ano directos para uma fábrica de pneus, e as mulheres em casa a cuidar de uma filha angustiada pelas coleguinhas cruéis de mães convencidas,

Aqueles que deram aulas aos vinte anos e tudo lhes aconteceu e deitaram as culpas ao destino (que inclui mortes/depressões & amores perdidos),

Aqueles que pensaram ter também amado, porém não amaram, apenas lhes foi dito que um dia o amor apareceria e eles pensaram que era aquilo,

Aqueles que lutaram com todas as suas forças para sair da adolescência e para se tornarem homens e, chegando lá, não tiveram motivos para sorrir,

Aqueles que passaram de ano sem saber o que era o futuro, ou viviam dia-a-dia (carpe diem), ou sabiam que não queriam ter mais 10 anos, apenas ter 18 para sempre,

Aqueles que idolatraram Buda & Krishna, perseguiram OVNIS e supuseram ser uma bruxa a velhinha de quem se contam histórias,

Aqueles que chegam sempre atrasados e inventam desculpas e vão perdendo amizades. E vão ganhando outras, e de novo chegam a tempo,

Aqueles que encontraram um motivo para viver numa prancha de surf, numa ideologia, numa mulher,

Aqueles que não encontraram,

Aqueles que perderam a virgindade com mulheres feitas, e os que desfloraram 500 miúdas de 13 anos e lhes deram os primeiros orgasmos.

Mas, oh!, isso foi quando a vida era ingenuamente feliz. Não agora, que sentimos o latejar das carnes quando cães ladram e guincham e se agridem por uma cadela no cio,

Que desesperamos, com um nó na garganta, incertos e inseguros dos compromissos que tomamos irreflectidamente, (se reflectíssemos não os tomaríamos),

Que desenvolvemos traumas por cenas mal resolvidas, tanto que nos consideramos, mais tarde ou mais cedo, um ser humano mal resolvido, estejamos felizes ou não,

E passamos noites em claro, sonhando com os braços abertos dos nossos amantes, ou apenas amadas. Sem mais para sonhar: estar apenas envolvidos em abraços quentes,

E de dia, friccionando as nossas calças de ganga contra tudo o que se atravesse à frente, ficamos de pau feito e só nos apetece foder e as gajas que passam, boas e mal tapadas,

E parecemos perder o fôlego quando as vemos. Perdemos a capacidade de falar quando as conhecemos. Perdemo-nos quando as conquistamos.

Todos caímos nas garras de uma outra pessoa. Ambiguamente no inicio, depois desoladamente! E eu caí, nós caímos…

Tanto que cometemos crimes em nome da paixão. Esperámos ficar impunes? Pagaremos pelos nossos excessos?

Tanto que ficamos cegos e nem uma luz de farol apontando na nossa direcção nos faz mudar a rota, e as rochas não se movem nunca,

Tanto que vamos ao inferno por causa de um beijo, de uma declaração de posse, ou compromisso, chamem-lhe o que quiserem,

E quando troveja ela refugia-se na segurança da tua companhia e tu sentes-te subitamente útil,

Qual cão uivando à procura da nossa fêmea na noite, e outros uivando de volta, talvez não seja por isso,

Então já não sei por que é que uivo, e pergunto-me por que é que os cães uivam e algo me diz — Porque sim!

Uivo por uivar, todos uivam.

Allen, responde-me, por que é que neste ano de 2006 se uiva, se já não há essa beatitude desinteressada, essa batida nova, esse abatimento esperançoso?

O meu Portugal não é o teu Arkansas, ou a tua Denver o meu Porto, nem em Newark se vêm estes portugueses que me fartam (ou talvez sim!)

Já não há inadaptados como havia e desordeiros como se viam, dantes…

As auto-estradas A3, A4 e Amuitos não são a Route 66 e agora vai-se ali e vem-se em 3 horas.

Já não há indigentes. Só drogados. Mas o que eram os teus indigentes? Mudam-se os tempos, mudam-se os nomes.

E de novo oiço os uivos à distância de dois quarteirões e a melancolia instala-se. Será por isso que uivo de volta?

Inception

Desde Memento que o nome de Christopher Nolan se tornou um household name para quem gosta de bom cinema. Se em 2008, The Dark Knight foi a confirmação brutal de um talentoso argumentista e realizador, agora, 10 anos depois de Memento, Inception demonstra ser a tão aguardada e original obra-prima de Nolan.

Um filme revolucionário e grandioso como foi The Matrix na sua era, Inception conta com um elenco de luxo - DiCaprio no seu registo habitual, Joseph Gordon-Levitt roubando cena atrás de cena, Ellen Page surpreendentemente adulta, Michael Caine cheio de classe, Marion Cotillard bela e fatal - e, acima de tudo, com um argumento que nos impede de desviar os olhos do ecrã e um final épico que tanto nos tira o fôlego como nos deixa em suspense em seguida. Nas semanas seguintes após a visualização de Inception, o final continua a girar dentro de nós como um puzzle por resolver, e por mais discussões que tenhamos sobre isso, não chegamos a lado nenhum, só nos enterramos ainda mais em teorias rebuscadas.

Um filme a não esquecer, portanto. nº1 de 2010 até agora.

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